Noël

Longa é a espera por uma noite que jaz entre umas trezentas e sessenta e outras cinco ou seis. Sem qualquer evento natural relevante, é de se indagar o porquê de ser uma data tão especial. Um pôr do sol anuncia a noite mais mítica do calendário ocidental e, por um momento, há quem pense que a próxima alvorada será mágica.

Durante um par de semanas, coisas que não se vêem durante todo um ano tomam forma. Pessoas se perdoam, abraçam, riem e comem juntas. O choro de um bebê anuncia a vida. O choro de quem fica denuncia o pesar. Reencontros. Excessos comemorativos e porres homéricos. A cara de bobos dos pais que vêem o filho rasgar o embrulho da bicicleta que lhes custou a noite para montar e embrulhar.

A felicidade estampada naqueles que comemoram seu primeiro ano juntos, tão presente nos que já somam décadas. O sorriso saudoso de quem já não faz essas contas. A saudade de quem não pôde vir e de quem não mais voltará. A vitória dos primeiros passos de um rebento, do reabilitado, do velho que aprende a bengala. A melancolia de sentir-se
esquecido e a alegria de ver-se lembrado, independente de viver em uma casa aconchegante, um asilo ou sob uma marquise.

Eventos que notamos todo fim de ano, todo Natal. Mas de que somos exemplo se esquecermos dessas coisas que ocorrem, tão vivas quanto, no resto do ano? Celebramos em um dia a vida de todo um ano, e isso deixa de ser belo se acharmos que essa vida dura só um dos 365 dias. Não se trata de celebrar um nascimento ou de dar presentes e enriquecer o comércio local. Celebramos a vida, uma vida que brota todos os dias sob diversas formas, desde um intenso beijo apaixonado a um singelo gesto de segurar a porta para alguém que vem logo atrás de si. E uma época onde lembramos eventos assim só pode, mesmo, ser muito especial. Faço votos de que tenhamos boníssimas lembranças e motivos para comemorar o natal. De 2008, para este já nos abastecemos.

Boas festas a todos.
Muita paz em 2008.

Aquarela

Bonita. Assim se sente quando termina de vestir seu rosto com nuances diversas, que variam conforme seu humor. Suas feições outrora de uma inocência juvenil são realçadas pelo cereja do batom e a sombra, sempre leve e elegante, nos olhos.
Pergunta-se, de novo. Por onde andará, como estará hoje, aquela sua velha conhecida dos tempos que já se foram? Especula, mas sabe que não adianta procurar, ela se foi com as areias do tempo. Ou acha que sabe. Mas não se indaga da diferença entre achar e saber.
A elegância em saber vestir o corpo é tão importante quanto saber vestir o rosto, e ela domina ambas artes muito bem. Sabe o que lhe cai bem e cai dentro de um belo vestido, de estampa sóbria, sim, mas sem parecer uma carpideira de velório.
Naqueles tempos, quando conviviam, a moda era outra. O diga sua linda saia rodada branca com bolas amarelas. Um tempo onde um tamanco de cor quente pedia uma pista de dança e um twist. Mas isso foi quando chapéu era moda, não para esconder raízes que teimam na cor branca dos anos.
Enfrenta o sol do fim da manhã, precisa comprar coisas pro jantar. Aniversário de casamento. Não sabe dirigir, mas, senhora de respeito, jamais senta no banco da frente do taxi. Conjectura sobre o que cozinhar, o vencedor termina sendo o bife enrolado, recheado com provolone. Detesta. Mas seu marido adora.
Quantos anos terá aquela moça, hoje? Seu aniversário foi há poucos dias, mas não consegue lembrar quantos anos faria. Recrimina-se por lembrar tanto de alguém que já nem mesmo faz parte de sua vida, e por fazê-lo em tão curto período, com tanta coisa para aviar. Ainda precisa voltar para casa a tempo de assar a carne. E receber o telefonema lamurioso de sua amiga mais próxima.
Ao crepúsculo, recebe seu marido com um sorriso no rosto lindamente decorado. Sentam à mesa. Ele elogia o vinho e o cheiro da comida, enquanto ignora que ela veste o vestido que ganhou dele pela manhã. Ela finge que gosta da carne e sorri, mais por ele que por ela própria.
Ouvem um pouco de Noel Rosa e vão dormir. Estão já cansados para dançar, como há dez anos, ao som de Pixinguinha. Foi como se conheceram, em um baile, ao som de um saxofone encantador. Outros tempos. O vestido branco e rosa deu lugar a outro, só branco. A jaqueta de couro à James Dean foi substituída por um inócuo terno preto. De abraçados, dormem de camisolão e pijamas.
Já deitada, lembrou-se. Esqueceu de lavar o rosto. Foi ao banheiro demaquilar-se. Sonolenta, mas com o mesmo critério com o qual veste o rosto todos os dias. Mais uma vez lembrou-se de sua velha conhecida. Ensaboando as bochechas, desdenhou de sua memória e levou o rosto à pia. Deitando a toalha no suporte, quis assustar-se, mas faltou-lhe o fôlego. Diante de si, perplexa, lhe fitava a versão madura daquela jovem que, há muito, desaparecera de sua vida.

Pegadas na areia

Nas extremidades fazem-se sentir os encurtamentos. Tendões são como cordas que nos dão movimento, numa marionete de nós mesmos. E é interessante como o organismo acompanha as perspectivas da psique, como somos capazes de projetar fisicamente aquilo, precisamente, que nossa mente espera encontrar. Assim, a tentativa obcecada de manter-se sempre no controle,no domínio das reações àquilo que chega, ao ponto de não se permitir viver e sentir o que não se pode controlar, retesa as cordas da marionete que é o corpo. E, do mesmo modo que uma criança não tem freios e tem um corpo serpenteadamente flexível, este adulto, inflexível com aquilo que lhe foge ao controle, tem seu corpo retesado e encurtado. É o modo de manter-se seguro, o modo de ter-se tão por perto quanto seja necessário para proteger-se. Proteger-se de sentir.
É como uma pérola criar, à sua volta, uma ostra velha e coberta de limo.Sabemos que o espinho que dói debaixo da unha vai deixar de ser um problema se removido, mas não pensamos nisso quando a unha é nossa. E quando um estímulo nos remete a uma lembrança, um cheiro, um som, a sinestesia apavora aquele rapaz que habituou-se a caminhar não na grama, mas no concreto. É quente, mas é sólido. Não cheira gostoso quando molha, mas é previsivelmente firme. Diferente da areia da praia, não tem o cheiro da brisa marinha, mas não vai afofar com sua pegada. Troca-se um bom momento pela segurança de não correr o risco de ter um mau momento. Que, omessa, sequer é certo de dar-se.
Felizmente, a natureza é sábia e o concreto racha. A terra só racha se houver nenhuma água e muito sol, mas cimento racha com água e sol, juntos. É curioso, porque a combinação que faz nascer uma flor bonita é a mesma que destrói o símbolo da solidez tão buscada. Mais, é de uma linda ironia.
Clarice Lispector, certa vez, pasmou-se da força das plantas que surgem por entre as brechas do concreto rachado de sol, e esse surgir tira a previsibilidade da coisinha cinza que fica escaldante sob o sol de meio dia. Leva embora sua segurança. Iguala-a à areia da praia na maré vazante. Não há mais segurança contra maus momentos. Não houve nenhum mau momento. Quanto tempo perdido.
Mas tempo não se perde, mesmo quando perdido. Nessas ocasiões, ele nos ensina, na sua perenidade, aquilo que não seria uma lição rápida. Às vezes, precisa ser demorado porque, num curto espaço, seria de uma dor intolerável, a verdade, a nos mostrar o quanto desperdiçamos nossas vidas tentando racionalizar uma gota de orvalho, quando, simplesmente, ela é bela. É bela. Ponto. Não há nada a dizer. Há a sentir. O homem, em seu afã evolutivo de tudo compreender, controla seus sentimentos e sentidos. Tolhe-os. Estraga uma das maiores belezas proporcionadas por seu corpo, a sinestesia das coisas
que vêm para serem tão-somente sentidas. E tudo isso para, depois de muito dormir em cama de pregos, dar-se conta de que há, sim, muito o que pensar. Mas há, também, o que sentir, e tais matérias não se mesclam entre si.
Então, o menino não gostava de andar na areia. Mas descobriu que bichos de pé acontecem e não estão à sua espreita, a beira-mar. Descobriu, também, que o sulco que deixa sua pegada não provém do peso de seu corpo, mas do peso de seus sonhos. E apercebeu-se de que, se tudo previsível fosse, um beijo de uma pessoa amada não traria nenhum frio na barriga. Ora, afinal, a areia parece-lhe convidativa. E o menino já não teme bichos de pé.

Feijões mágicos

Há uns dias, de novo, não escrevo. Não fujo de meus pensamentos, contudo. Não tenho escrito porque priorizo. Todo homem deve plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho, alguém célebre, que minha memória ofende, teria dito. Eu digo que faltou o surpreender uma bela dama e fazer dela companheira de uma vida. Eis a minha prioridade, cuidar dos preparativos e dela. Sim, porque minha árvore foi um pé de feijão mixo, mas a surpresa foi, sim, bem feita.

Escrever um livro não me custa, verdadeiramente. Na verdade, me veio dos céus a bênção de colocar bem as coisas em palavras. Ou maldição, já que há os momentos em que essas coisinhas feitas de letras de nada valem. É quando eu preciso de uma bússola, porque fico completamente perdido, sem o escudo de minhas metáforas quixotescas.

Mas faria um livro só com o brilho de seu olhar quando expõe sobre o que lhe apaixona ou o sorriso que causaria um desastre ecológico, fosse eu uma calota polar. Escrever sobre temas do coração é algo que carrega grande risco de ridículo, e ignorar o risco só prova a origem da inspiração. O fato é que o jardim que em vão pareci cuidar por tantos anos ora conhece a Primavera, sem que eu tenha parte nisso. Caso em 21 dias e caibo em meu terno, mas não em mim.

Ah, o filho… calma, calma. Practice makes perfection.

(este texto é para minha em-breve esposa. Amo-te, Nana.)

12/6=2

Hoje eu recebi um presente de uma pessoa mui, mui especial. Encabulou-me não ter palavras sendo um homem de palavras, mas tudo que pude fazer depois de ler as suas foi emudecer e lhe dar um sereno beijo. E publicar aqui, para que as pessoas aprendam a fazer conta direito.

Há cerca de dez meses atrás eu me apaixonei pelos escritos de um certo rapaz. Pelas palavras cheias de sensibilidade, repletas de sentimentos pulsantes, muitos dos quais eu partilhei… como muita gente um dia fez, faz, ou por certo virá a fazer…
Mas havia uma particularidade nesse rapaz que cativou em mim profunda afeição.. A sua lanterna suave e ao mesmo tempo incisiva e teimosa, tal qual a personalidade de seu dono. E logo nos primeiros dias ela passou a desenterrar segredos escuros, iluminar máscaras sombrias, afugentar um medo cego, medo de se deixar conhecer naquilo que há de mais verdadeiro em um ser humano.
Descobri que esse rapaz era escritor, fotógrafo e à época era também acadêmico do curso de Direito. Pasmem, o mesmo que eu continuo a cursar… Ironia? Coincidência talvez? Não. Artes de Clarice. Qual Clarice? Lispector, ora! Quem mais entendeu tão bem o que eu senti por tanto tempo? Ela soube antes de mim o que aquele escritor, hoje Bacharel em Direito, faria na minha vida.
Amanhã completo 22 anos. Ainda ontem conversávamos sobre o que havia acontecido em nossas vidas até então. Mas não é esta a razão das palavras que estou colocando aqui. Daqui a 4 dias, comemora-se uma data que costuma ser um tanto incômoda para quem não tem alguém para comemorar consigo. Não deveria ter tanta importância, mas esta se deve a nossa mania incurável de
demarcar datas para momentos especiais. E um dos textos que passaram por meus olhos era justamente sobre esta data. Havia certa tristeza no que estava escrito, e uma tímida esperança espiando pela frestinha de um coração de cavalheiro.
Apaixonei-me por este rapaz dias após o nosso primeiro e inesperado contato. Dois meses se passaram enquanto eu insistia – com a voz alegre e sábia de Clarice a sussurrar em meu ouvido: “Vale a pena! Acredite!” – em despertar naquele rapaz de sorriso grande e olhos profundos e inquietos, o mesmo que ele havia despertado em mim! E custou-me a acreditar como consegui. Mas
aconteceu de fato. Passamos um mês vivendo em um mundo novo, só nosso, cheio de sonhos e desejos que se realizavam numa velocidade que veio a ser preocupante. E que trouxe consigo a forte turbulência dos dois meses que se seguiram. Para estar com alguém é preciso se dispor a estar cada vez mais consigo, e custou algum sofrimento para que ambos pudéssemos perceber isso.
Um brusco rompimento de três semanas se fez necessário. Para que o sentimento que o sucedeu nascesse com a força de um grande amor, com a maturidade tranqüila da individualidade de cada um. Unidas por um companheirismo invulgar. As turbulências continuam a existir, mas o tempo foi excelente mestre em nos ensinar a contorná-las. E não só sei como desejo que
elas continuem a existir, para que jamais esqueçamos do que o que sentimos um pelo outro é capaz. Hoje a conta fecha, meu amor. Estes somos nós. Hoje 12/6 é igual a dois. E a essa altura já é totalmente desnecessário mas nunca excessivo dizer a todos os possíveis leitores deste escrito – dentre eles você, a quem eu o dedico – que eu o amo. Sem adjetivos, eu simplesmente amo
você, meu companheiro fascinante, Fernando Segura.
Sua pequena,
Nana

280.000.000 segundos

Há cinco meses, não escrevo mais textos livres. Já me cobram alguns, onde andam minhas novas palavras, mas a verdade é que não tenho escrito, mesmo. Não por faltar tempo. Não por sobrar olheiras. Na realidade, minhas olheiras se foram e, depois de formado, não tenho tido tão pouco tempo assim. Mas é fato, há cinco meses não escrevo nada novo. Ou, ao menos, há cinco meses, não publico.
Ocorre que desde Outubro passado, o sentimento dominante no que já escrevi fez as malas e foi-se embora para Pasárgada. Não é dizer que a minha pequena é culpada por eu não escrever, mas ela, direta ou indiretamente, é a causa primeira. Hoje nós completamos seis meses juntos, e ela me cobre de atenção e carinho. Eu tenho, hoje, tudo aquilo que, nas
entrelinhas daquelas palavras tristes, eu gritava sentir falta. Mesmo que tenha demorado a me dar conta disso.
Gostaria de publicar hoje algo muito grande, para mostrar o quanto lhe gosto, o quanto lhe amo. Mas, e essa é a outra causa, as palavras têm se tornado um tanto vãs. Sabe quando você sente vontade de expressar seu carinho por alguém, mas descobre que nenhuma palavra no dicionário é capaz de dar conta do trabalho satisfatoriamente? É bem por aí. Eu queria escrever uma das cartas bonitas que fiz pra ela nas primeiras semanas, mas aí eu lembro que falo bem três idiomas, mas sou incapaz de traduzir sentimentos realmente fortes em palavras.
…E me lembro do quanto ela critica os clichês, e o quanto acabo acorrentado a eles.
Percebi que os clichês dos que amam não podem ser chamados assim, porque são como chocolates. Todo mundo sabe que chocolate é doce, mas ninguém se atreve a chamar chocolate de doce. Chocolate é Chocolate. É mais ou menos a mesma coisa com os clichês dos amantes. Quem nunca experimentou dizer um “eu te amo” estando, de fato, amando, vai achar ridículo ouvir outro casal repetindo esse mantra. Valha-me Pessoa, eu  que não aprecio poesia. Valha-me, pois esta é uma carta de amor e, portanto, ridícula. Valha-me, pois eu amo e escrevo as minhas coisas ridículas. Para meu amor sorrir e para  quem nunca amou torcer o nariz. E eu rir do nariz torcido, pois este há de ser o sinal da cândida infelicidade de nunca ter tido para quem ligar ao raiar do dia e dizer “te amo.”
Esta carta é para a minha pequena, Nana. Hoje é vinte de Abril de 2007 e eu a amo.

Uma lua

É preciso ter olhos para ver o que a vida tem a nos oferecer, é preciso saber enxergar para não ficar, depois, a lamentar por ter perdido uma coisa que tanto pedimos e não a reconhecemos quando finalmente fomos atendidos.
Há pouco menos de três meses, depois de cansar de procurar aquilo que muito pedi durante quase duas décadas, fui encontrado. A despeito de seus esforços, relutei e relutei, tentando evitar o inevitável. Eu teria conseguido, em minha teimosia hispânica, não fosse a tenacidade e a certeza dessa pequena de olhos afiados, mas de um olhar sereno e sorridente.
Ironias da vida, eu fugia dela como pessoas que cortejei ao longo dos tempos fugiam de mim. E ela não desistiu, como eu demorei a desistir, também, naquelas ocasiões. Até que resolvi ceder ao que, de fato, mostrou-se inevitável. Rendido ao afeto que ela me oferece, cedi e calei a teimosia que me fazia correr daquilo que rezei tantas noites para receber. O carinho que eu ofereci durante anos e muitas vezes fora recusado por quem eu o nutria agora me fora oferecido. E eu, finalmente, resolvi ser lúcido e aceitar. E não consigo evitar o pensamento de como fui tolo de fugir disso por cinqüenta e cinco dias.
Castelos de areia são bonitos, mas a onda fatalmente os levará embora. Poemas de amor são lindos, mas não quando feitos às custas de lágrimas de rejeição daquela que os inspira. Agora, eu tiro fotos do pôr do sol e componho poemas em beijos demorados. Abraço uma pequena terna e serena vendo o mesmo Sol que já foi testemunha de minha tristeza se pôr. Só que agora ele é testemunha de uma felicidade que há muito eu esquecera.
Cá vão trinta dias. Na última sexta-feira completou-se a quarta semana desde que começamos o primeiro destes trinta dias, diante do mar e do céu avermelhado do crepúsculo. Trinta dias desde que uma mulher cuja estatura é proporcionalmente inversa a sua grandeza me tomou nos braços e fez os meus pensamentos inquietos silenciarem. Paz. Ora, há quanto tempo, como tem passado…? Eu não sabia o que era calar os pensamentos. Não lembrava o que era sentir saudade de alguém minutos depois de apartar-me dela. Olvidara o acordar com uma idéia fixa. E ora recobro tudo isso.
Meus textos freqüentemente falam deste tema de maneira triste. Houve uma ocasião em que disse buscar meu lar, o espaço entre dois braços onde me sentiria em casa. Em outra, fiz versos buscando quem enxergaria o que há por detrás de meus olhos. Eis que vejo duas coisas escritas em momentos de melancolia preenchidas, e num momento em que até as minhas sempre presentes olheiras tiraram férias.
Tenho escrito pouco, ultimamente, e minha pequena é responsável por isso, em grande parte. Não por haver me tomado tempo, mas por eu ter criado o hábito de escrever em momentos pouco alegres. Ocorre que se me escassearam estes momentos. Preciso recuperar a escrita nos bons momentos, e este texto é o primeiro destes que virão. É o que escrevo para dizer ao mundo que estou vivo, bem e feliz. Como há muito não estava. Como não quero mais deixar de estar.

Amo-te, Nana. E estas palavras, em público, são para que não reste dúvida disto.
Amo-te.

A Primavera

Ah, la vita è bella, veio a uma cabeça que acompanhava a cadência feminina de duas pernas. E o não acompanhar o movimento da cabeça deu ao corpo a certeza de que havia chegado a Primavera. Sentiu-se caminhando num jardim, por entre os sorrisos das flores, mesmo quando, em verdade, estava na calçada de uma avenida tão ruidosa quanto movimentada. Apenas digamos que a beleza pode provocar surdez, pois o ronco dos motores não atraía sua atenção.

Um passo apressado, sem contudo perder o equilíbrio que a mantinha nos saltos, provocava uma batida rápida e compassada como a dos corações que a viam passar diante de seus olhos incrédulos. Não tinha propriamente pressa, mas sentia-se consumida pelo andar frenético do tempo. Percebia-se notada, mas não achava tempo para uma massagem no ego, como a que faz a visão dos pescoços torcidos.

Revisando papéis à beira do rio de gente, ele observa a vista como quem espera um pássaro pousar para fotografá-lo. Inofensivo como o café fumegante em sua xícara, ele testemunha desde sorrisos de gente que atende a uma chamada de alguém querido até o displicente rebolado da gordinha que, agradando ou não, sabe-se notada.

Procurando uma mesa vaga entre tantas pessoas, ela começa a considerar adiar seu suco por falta de onde acomodar-se. Então, um maço de papéis abaixa e revela um olhar a oferecer-lhe a cadeira vaga diante da mesa. Ela, que não fala com estranhos, aceitou a oferta com um sorriso encabulado de quem viu seus pensamentos devassados.

Ele não pôde deixar de notar seus belos olhos amendoados em uma expressão aliviada de quem descansou os pés por um instante. Amaldiçoando sua agenda e o fato de ter pedido a conta, ele ficaria e tentaria saber mais. Não podendo, lamenta por deixar seu bilhete premiado sozinha no meio de tanta gente apressada demais para esperar o café esfriar.

Ela não esconde que aquela figura compenetrada de cabelos finos e curtos a interessava. Olhos debruçados no papel e, por vezes, nas pessoas, ele fingia uma calma agitada desde sua essência. Mal pôde disfarçar seu desapontamento em vê-lo levantar sem saber seu nome. Sem olhar para trás, ele anda apressado em direção ao seu destino ignorado. Voltando os olhos à mesa, ela nota um cartão com um número e uma frase elogiando seus olhos. Ela também achou os dele lindos.


O dragão

Dia puxado, mal coube um café e um dedo de prosa. A chuva fecha com chave de chumbo aquela volta escondida de um sol arrependido de ter dado as caras, só para ver sua cena roubada pelas nuvens.
O vento encanado do metrô faz as pessoas ficarem em dúvida sobre ser melhor estar sob ou sobre a terra. Mas melhor com frio que molhado, e lá em cima chove a cântaros. Com o guarda-chuva encharcado, ela se junta a uma das filas que, em instantes, devem virar um apinhado vagão.
Observadora, ela encontra olhares bem mais cansados que o dela, gente animada, gente que nem sequer está lá, passeando nas idéias. A maioria de nós faz-se de cego, são todos tão familiarmente estranhos. Outros analisam as caras e bocas, como ela, que fita a todos sem contudo ostentar um olhar invasivo, vê sem olhar. Um vagão de metrô. Um punhado de vidas e histórias. Um experimento sociológico.
Do frio encanado para a chuva sem vento e as poças de gotas finas, ela sobe as escadas, apressada como quem não quer destoar da paisagem. Entre passos ligeiros e movimentos bruscos para não estragar os sapatos nas poças, finalmente um bafo quente anuncia a porta de seu edifício. Deixa seus pedaços pelo caminho do quarto ao chuveiro quente e só enquanto seca o cabelo, afinal, respira fundo. Abre a porta e dá de frente com o sorriso inesgotável e o abraço apertado de seu filho, que, não sabendo que há um dragão lá fora, salva-a dele todo fim de dia.

23 e 12 meses

Daqui a pouco, em coisa de seis horas, completo meu vigésimo quarto ano de vida. Antes que ocorra a alguém alguma piada maldosa, eu já fiz todas possíveis e continuo imune aos efeitos do número. Piadas novas, por gentileza, hahah.
Os últimos doze meses me fazem pensar como eu devo agradecimentos. A todo mundo que não saiu correndo gritando que eu sou maluco (não que eu não seja, mas isso lá vem ao caso?), mas principalmente aos meus amigos. Não por lembrarem de uma data. A importância deste dia para mim não reside no fato de que eu fiquei um ano mais velho, meus cabelos brancos, rebeldes que só eles, me dão um pouco mais que os reais 24 anos. A data marca uma outra coisa, um recomeço. Eu tenho duas contagens, então, a do corpo e a da cabeça. E é por isso, não por lembrarem do dia, que sou grato a essas pessoas. Graças à paciência de quem acaba dizendo que atura porque é sangue, mas atura por outros motivos, graças aos meus bons amigos, gente que não simplesmente diz “você pirou na batatinha”, mas diz logo em seguida “se é pra ir, vamos de uma vez”, algumas coisas muito interessantes ocorreram neste período. Também devo muito desse progresso a dois outros fatores: o profissionalismo de uma pessoa sensata que me acompanha há quatro anos, mantendo meus pés firmes no chão, e a minha inquietude, que me fez ver algo muito errado naquele limo lá embaixo no poço. E eu subi.

Não foi um ano exatamente fácil, mas nada fácil tem muita graça. Conheci gente muito interessante, gente que ficou, gente que partiu. Mas, mais importante, me conheci um pouco melhor. Eu disse que faço duas contagens, e da segunda eu já reaprendo a caminhar. Aprendendo muita coisa que não aprendi quando deveria, mas sem ter vergonha de dizê-lo, porque vergonha seria precisar de ajuda e não ter a quem recorrer. E, a despeito de tudo, eu tenho uma mente lúcida e inquieta, e… tenho os meus amigos. Gente de toda sorte, mas, principalmente, gente de caráter. E são pacientes pra burro, porque eu sei que não sou uma pessoa fácil. Tem horas que nem eu me agüento. Momento leonino: Mas, bem, eu tinha que ter um defeito, né? ahahah

Eu bem que tentei não cruzar o décimo segundo mês sozinho, tem as piadas, sabe como é. Mas, curiosamente, estou sem companhia, mas estou ótimo. É o lance do antes só. Quando você tem de explicar metáforas ou frustrar-se com a pouca ambição de alguém que lhe encantou, descobre que não é com ela que você vai ganhar o mundo. Ainda estou à cata daquela que vou ver, recém acordada, com cara amassada e bafo de jejum e enxergar a mulher mais linda do mundo. Cara, você tem mesmo que estar apaixonado pra ver uma cena dessas e não tomar um susto, acredite.

Enfim… things change, people change. O que não muda nunca é teimosia de espanhol. Chamem isso de meu charme. Eu agradeço, mais uma vez, a todos que fizeram e fazem parte de minha vida neste ano e além dele. Por tudo, pelo carinho, pelos ombros, conselhos e afins, muito obrigado. E muito obrigado também pelas felicitações que já começaram desde a 0h em ponto. Queria nominar algumas pessoas importantes, mas não quero esquecer ninguém e ser injusto. :)

Lar

…E quase jogo esse texto fora. Sei lá. Mas certas coisas não correm o risco de virar clichês, mesmo quando já o são de nascença. Certas coisas não correm o risco de serem ridículas mesmo quando nos fazem sentir uns belos palermas só de pensar. Pessoalmente, não é meu tipo de texto preferido, há algo nele que me incomoda profundamente. Mas tem quem goste, e eu não podia guardar isso numa gaveta :).
Espero que gostem. Mentira, eu não tenho certeza se gostei. Mas espero que gostem.
.fs

- Como me livro de alguém inesquecível?

- Temo ainda não ter descoberto.

O envelope imaculado repousa sobre o tampo da mesa da sala, enquanto dá-se esse diálogo. Alana o fita como quem encara uma porta sem ter idéia de quem a cruzará. Faz algumas semanas que ele partiu, mas não esqueceu de seu aniversário, e o envelope traz seu endereço novo em sua caligrafia miúda e afilada, com um cartão, provavelmente escolhido a dedo e com algumas coisas bonitas escritas com a mesma letra rápida. Vencida por um lado de si, abre o envelope. Sem cartões, apenas uma foto protegida por dois pedaços de papel grosso. Um girassol.

“Girassóis sempre viram-se para a luz. Flores um dia morrem. Mas, antes que chegasse um ou outro crepúsculo para essa flor, aprisionei sua alma nesta imagem, para dá-la de presente a outra, para que uma tenha sempre à outra e brilhem sempre juntas, refletindo a luz do sol. Felicidades e saudades.”

Eis que a saudade condensa e lhe rola, discretamente, do olho à boca. E Alana não consegue escolher se amaldiçoa o momento em que abriu o envelope ou se o eterniza em sua memória como ele eternizou aquele girassol. Não saber escolher entre coisa e outra custou-lhe a noite e, horas depois, lá estavam as duas flores presenciando a aurora na janela daquela sala.

Quase dois meses desde sua partida, Roberto não mandou qualquer notícia. Preferiu silenciar, na tentativa de fazer com que o nó na garganta se dissolvesse mais rápido. Os bons remédios são amargos, mas o amargor não diz se o remédio é bom, e Alana lhe povoou os sonhos mais uma vez, a uma semana de seu aniversário. Sua vizinha, uma senhora gorda e sorridente, cultiva girassóis no canteiro de sua varanda, e ele mal consegue se afastar da câmera, como o cheiro daqueles cabelos não o abandona. Com o marcador permanente do balcão do laboratório fotográfico, escreve apressadamente palavras bonitas que preferia poder sussurrar pessoalmente rente àquela orelha. Solicitou remessa expressa, para ter certeza de que chegaria a tempo, o que, de fato, ocorreu, e inspecionou o trabalho da agente postal para que a foto não fosse marcada pelo carimbo, a despeito das duas grossas folhas de papel que a guardavam dentro do envelope branco. Agradeceu e tomou o rumo do café onde costumava tomar notas sobre a cidade à qual ainda não havia se acostumado de todo.

Alana não perdeu o sono por conta da caligrafia que bem conhece, pela flor ou pelo que havia no verso. Na verdade, o que a inquietou desconcertantemente foi o final. Saudades. Um abraço apertado vem à tona e o nó se forma em sua garganta. Mas… o silêncio partiu dele, e tal emudecer começa a ficar claro, embora ela ainda vá levar algum tempo para dar conta de algo que, acreditava, mais parecia um convite a ocupar um lugar na parede das memórias de alguém que já a viu adormecer. O silêncio é a saudade que lhe paralisa as cordas vocais, que digere seu estômago. É a vontade quase que irresistível de largar tudo e ir bater àquela porta colonial, coisa que ele não pode fazer agora. O silêncio foi a forma que ele conseguiu de vencer a si mesmo. É seu remédio amargo, mas que não sabe dizer se faz mesmo algum bem.

Apesar do movimento que denuncia o oposto, o silêncio parece ser a vontade de Roberto, e ela respeita tal vontade. Se fizer-se ouvir uma voz, não será a dela a primeira. Não é orgulho. Tudo muito abrupto, a partida, os laços cortados… deve haver um motivo muito forte para isso. Alana não consegue digerir a possibilidade de que ele simplesmente encheu uma mala de roupas e foi embora. Ele foi atrás de um sonho, mas havia outro sonho que não era só dele. E sonhos não se dividem.

Epílogo

- Oi
- Oi
- Fiquei sabendo que você chegou. Saudades suas.
- É, cheguei ontem de noitinha. E você, tudo bem?
- Tudo, tudo bem. Veio a passeio ou…
- De mudança. Pelo menos por enquanto.
- Que bom. Tem planos pro jantar?
- Não faço mais planos pra nada. O que tem em mente?
- Um jantar aqui em casa, nós dois e uma garrafa de vinho.
- Fechado. Mas eu cozinho.

Roberto sentiu um nó inflar em sua garganta, como na vez em que se descobriu alérgico a mariscos. A visão daquele olhar que o chamou na primeira vez em que se encontraram traz lembranças demais, partidas demais. Chega de partidas.
Abraçaram-se forte, mas contiveram a vontade de um beijo, talvez por medo do que os invadia naquele instante. Algo de um magnetismo sobrenatural, que manifestava-se em uma saudade que trouxe um frio adolescente na barriga e olhos marejados.

Ela já tinha esquecido como gostava de vê-lo fazendo algo que lhe agradava. Ele gosta de cozinhar e sabe preparar seu molho preferido como só sua avó sabia. É só um linguine, mas não é só. É um linguine feito por alguém de cujas mãos ela provaria até bolo queimado. Alguém que serviu de cobaia para suas experiências malsucedidas ao fogão, que aprendeu a fingir gostar de comer seu arroz empapado apenas para vê-la sorrir. Terminaram o jantar e foram conversar no sofá.

- Eu menti pra você hoje cedo
- Como assim?
- De não ter planos.
- Você tinha compromisso pra hoje?
- Não, digo… de não fazer mais planos.
- Ah, tá. Mas então você tem planos para algo?
- Para alguém.
Ela hesita… “Não sei se entendi”
- Não tente.
Roberto vira-se de costas e ela o aninha em seus braços.
- Eu estou em casa, agora.

Alana o aperta, desliza numa posição mais agradável para suas costas e o vê dormir, numa paz reconquistada. Até então, nunca entendera de verdade quando ele dizia que lar era onde nos sentíamos em casa. Até então.

Ganhando o mundo

Este texto foi feito em Maio e nunca veio a público. Então, resolvi hoje que ia pôr no ar.


Cavalheiros, fomos declarados ‘em risco de extinção’ e postos ao lado de mico-leão dourado e ararinha azul. E, por incrível que pareça, isso é bom. Em meio a uma população de menos-conversa-e-mais-ação, somos poucos e isso inspira cuidados. Até agora, nenhuma enfermeira peituda veio me oferecer colinho, mas numa terra onde corno é o penúltimo a saber (o último é o presidente), eu não me atreveria a perder a esperança. O perigo é terminarmos em cativeiro ou em uma exposição de taxidermia.

Credibilidade não é algo de que gozamos. Tem tanta imitação barata que finge por uns três meses saber como tratar uma mulher que já me habituei a caras de espanto com atos corriqueiros como abrir uma porta ou oferecer um braço. A coisa tá preta, cambada. Somos peças de antiquário que elas ficam com medo de quebrar ou o videocassete que elas não sabem programar. O cavalheiro não é como cabeça de bacalhau ou enterro de anão. É um homem distinto que segura a alça do caixão numa mão e a cabeça do bacalhau na outra.

Queimar cuecas não é algo bonito de se ver nem vai ter o mesmo efeito de sutiãs em chamas. Mas o hábito faz o monge - no caso, a falta do hábito. Elas desaprenderam a separar o joio do trigo e acostumaram-se com o gorgulho no feijão. Já cheguei a ouvir de uma amiga que gostaria de encontrar um cara bacana, mas que não sabia se lhe daria o devido valor. Que mulher não sabe o que quer é um axioma contemplado já desde Darwin, e isso até ajuda a quebrar a monotonia do diário. Mas não é o caso. Elas não conhecem o que querem, não sabem reconhecer. Terminam pedindo uma taça de cristal com champagne francês e contentando-se com sidra em copo de requeijão.

Detalhezinho quase desapercebido: Nós ou não existimos ou somos vítima da incredulidade. Justo. Mas não ficou faltando algo? Não ficou faltando achar na rua essas senhoritas que dizem que não existimos? Sim, sim… ficou raro achar mulheres que não ajam como homens na noite das cidades. Claro, dar uns pegas é ótimo. Mas não tá passando disso, e a convivência também é ótima. Mais importante, eu diria. A menos que estejamos falando de adolescentes com hipertricose palmar.

Essas moças que vão ao enterro do anão conosco devem estar entocadas em algum lugar. Existe raça de cão farejador que as encontre? Talvez uma mulher que já superou essa etapa possa nos dar o caminho das pedras. Nada de princesas, nada de meninas. Pedofilia é crime, pô. E seriedade não e sisudez. Tá, agora me arrumem seis dezenas que eu vou ali na loteria. Azar no amor, sabe como é. Uma sopa de bacalhau cairia bem, se eu gostasse de peixe.

Mas gosto de sorrisos. E de passar horas com alguém agradável sem ver o tempo passar. É a metáfora do braseiro e da cantada de que Einstein falou, acontece de não darmos conta de que passaram-se algumas horas, sim. Aí o menino do cabelo na mão reclama que legal é fazer a moça ver estrelas. É ótimo, mas no que uma coisa impede a outra? Não vamos esquecer que chega uma época em que nem a bala azul resolve mais. E ai, o que sobra? Quem é esse que começa a sair com uma guria resolvido que só vai sair até o fim do mês? Isso tudo pra quê, pra depois que o pega não for mais legal ir parar numa vara de família, olhando prum juiz, com cara de bunda? Eterno enquanto duro, mas também enquanto dure. E o lado que as pessoas andam desprezando é o que faz durar.

E ai? Continuo abrindo portas, é algo que faço sem mesmo dar conta. Continuo mandando flores. E vendo que não somos em número tão pequeno assim, muita gente age de igual modo. Mas as mulheres, ah, essas mulheres… quiseram tanto a independência que agora ficam pasmas quando lhes puxam uma cadeira ou um braço lhes é ofertado enquanto passeiam. Desejaram tanto o mundo e hoje contentam-se em ir até a esquina. Uma pena. Mas, de cá, já resolvi. Não convido mais para ganhar o mundo quem se contenta com uma esquina.

Vai pela sombra

Não tem coisa mais sem graça que acordar e ver, ainda em jejum, que um humorista bom morreu. Humoristas deveriam ser imortais. Tanto pior sabendo quem foi. Uma bomba de carne - e talvez, no caso dele, um pouco de gordura, pifou esta madrugada e levou embora uma das pessoas que melhor sabia fazer piadas de gordo. E de político. E de si mesmo. Ninguém sente de verdade a dor da perda quando alguém que não faz parte de seu círculo vem a falecer. Mas a partida de Bussunda não é só a notícia mais sem graça de todos os tempos. É o prego no fundo do isopor de cerveja do bar. É não ter mais aquela imitação da língua presa do presidente. É um monte de coisas que, francamente, vão custar um bocado pra recuperar a graça.

Humoristas são imortais, afinal. Fica o riso. Ninguém lembra de um canastrão nem sente falta de suas canastrices. Mas taí um gordo bacana, um cara que me fazia ligar a TV uma vez por semana porque, afinal, valia a pena ficar ali sentado pra dar umas boas risadas. Isso vai fazer falta. Mas, diferente da F1, que não vejo mais há uns anos, a gente não pode parar de rir. Porque o que os torna imortais é nosso riso.

12/6=1

Doze sobre seis tem sido igual a um. Minha conta não fecha, e esse um sou eu, moi, yo, só, seule, solo. Desde que comecei a colecionar sapos, percebi que não adianta tentar mudar para encaixar-me nos sonhos dourados de alguém. Eu sou claustrofóbico, não caibo dentro do conto de fadas alheio. Girassóis não podem ser criados em cativeiro.

Há um ano, fiz um texto para esta mesma data, e agora dedico este à felicidade de um amigo que gostou muito do de então. E dedico também à solteirice deste que vos escreve, que assusta quem quer cativar porque as pessoas não estão acostumadas com o que foge ao padrão. E o padrão tem sido o medo da resposta alheia, o falar sem significar, o temor de não dar conta da felicidade de quem se quer. Mas a felicidade é problema de quem a tem, cada um deve cultivar a própria, ou buscá-la. E o medo é uma bela disenteria emocional que só traz estragos. Subir o poço com minhas próprias mãos ensinou-me que a melhor forma de entrar na vida de alguém é de cabeça, e eu só posso lamentar se isso apavora alguém. Especialmente alguém que eu queria poder fazer sorrir. Sou só mais um menino ensandecido pela saudade de um abraço que nunca dei, e a sorte é madrinha dos loucos.

C’est ça. O tempo não ajuda, e eu só tenho certeza de que não nasci na época errada porque não saberia viver sem meu telefone, para poder ouvir uma voz quando bate a saudade. Uma pena que eu não sei como certas vozes soam. Hoje já tenho dúvidas se a vida falta mesmo com a justiça, mas é engraçado como gente pode desejar algo e ter medo de que isso aconteça. Queria ter uma inspiração mais fagueira pra uma data que deveria ser ofegantemente alegre. Mas uma dúvida com asas de aço está para levar-me a inspiração dos últimos dias embora.

Believe

Thinking of words and their sounds, I could not help wondering how alike are the sounds for leaf and the final part of belief. Moments later, a thought came through, Be careful with what you believe in, or you might become a leaf for your beliefs. And I thus realized how true this can be.
Right now I’m kinda experiencing it. We, sometimes, build up ilusions in order to match our desire and fulfill the distance between a person and what we’d like her to be. When this happens, it’s like making sand castles by the shore, the tide will eventually get high and wash it over. By the way, this cannot be avoided by any means, no matter what you try. Believe me, personal experience.
Some time ago, I was worried about someone with no ambition at all. But I now realize that what I consider as the result of her lack of will fits just fine what she thinks the world has to offer her. I mean, it doesn’t matter what’s best to someone if that person believes otherwise. The belief looks like the truth and that nature can’t be changed.
But the belief itself can. However, it’s an internal process of each one, so that the person who originated my sand castle has nothing to do with the sand nor the castle. She’s fine, pretty and very clever. But I’ve seen there something that only aging can bring. I’ve seen something that she just hasn’t got yet. And even if I have foreseen that, it’s just not true right now. Believing in a lie won’t make it true. It will, atmost, make it resemble the truth.
There are means to put our feet back on the ground without getting hurt. I can’t really tell whether they work, as I always do things like these the hard way, but they do exist, as a matter of fact. Let’s say it seems better, although harder, to keep thing always clear like a jeweler’s lens. And there’s no easy way to do such. Now that I’m pretty near the ground again, I might consider starting over. Or I might forget everything and move on. Can’t decide which way to go just yet, but it’s better than trying to fight the tide. Better than despair watching my sand castle erode.

Risco do negócio

Relógio

Cuidado com o que deseja, você pode vir a conseguir.
Cuidado com o dedo na tomada, você pode se machucar.
Cuidado com o coração, ele pode não agüentar.

Mas se você nada desejar, nada terá. Se nunca meter o dedo em uma tomada, nunca saberá reconhecer quem lhe provoca um choque. Se seu coração nunca for submetido a uma taquicardia, nunca saberá se é capaz de suportar ver um filho nascer. Cuidado com o que, então?

Meu relógio parou. Eu olhei ele da estante, e vi os ponteiros parados no lugar. E vi um monte de coisas que eu queria ter feito se escondendo à sombra dos ponteiros. Um convite que eu não tive a oportunidade de fazer, um bilhete que nunca mandei, uma montagem fotográfica que nunca saiu de meu computador, alguns sonhos que nunca tirei pro papel.
Mas era só corda faltando.

Deu vontade de tomar sorvete? Tome. De chamar aquela pessoa simpática pra um papo? Chame. De almoçar com a vó? Vá, ora, diabos. Você não sabe se vai estar vivo amanhã, sabe? O que você perde, se não tem nada até conseguir? E o que você deixa de ganhar? Cuidado com o que? Perguntas demais. É apenas o risco do negócio.

Não sei explicar tudo o que se passa à minha volta. Sei um monte de coisas inúteis, mas não sei porque quero tanto ser pai. Sei que a lua é bonita quando cheia, mas não sei dizer porque. Só que o porque não importa. Eu olho a lua, acho a lua bonita. E pronto. Eu vejo aqueles olhos, acho-os encantadores. Não preciso explicar porque. Não com palavras. Mas com um olhar de volta, até consigo.

Os ponteiros mostram o que antes ocultavam. Eu jogo baralho com minhas memórias e aprendo com seus truques sujos. Jogo xadrez com meu desejo. E canto cantigas aos meus sonhos.
Dei corda em meu relógio.

Sampernica

Aula de História e Geografia Política contemporânea: Onde fica uma cidade, bastante conhecida, que sofreu o ataque surpresa de um exército inimigo, proporcionado por seu próprio Governo?

Não, não é Guernica. É São Paulo. A maior cidade da América Latina está, neste momento, sitiada por gente que mal sabe empunhar uma caneta, que mal sabe construir uma frase sem erros. Mas que sabe atirar, e bem. O exército inimigo é composto de conterrâneos, mas armados até os dentes e determinados a matar e apavorar gente.

Terrorismo. Onde estão as Forças Armadas? Queremos seus torturadores tão bons dos tempos do regime, queremos seus soldados determinados e impiedosos. Tão impiedosos quanto esses ímpios que trazem o terror na ponta de um fuzil. Souberam matar e dar sumiço em inocentes, quem melhor para, agora, redimir-se e dar conta de calar as armas de quem quer calar inocentes?

Revolta é um sentimento comum a todos no momento. Revolta e medo. Medo de que algo de ruim aconteça. Eu estou apavorado, por todos os meus amigos que moram na cidade. E também revoltado, por não poder refutar quem diz que, segundo o Estado, “Direitos Humanos são para os bandidos” e que nós não temos direito algum. Uma situação dessas, chegando a esse ponto, me impede de argumentar em contrário.

Só posso torcer pelos meus, por todos os inocentes, e rezar para que não tenhamos de procurar um pintor para fazer um registro em tela do estrago.

Orquídeas

Mais uma aurora e acordo a pensar quem será você.
Escrevo palavras doces, fotografo orquídeas, faço versos.
Sorrio às crianças no parque, na rua.
Busco o olhar tranqüilo que povoa meus sonhos, mas nada encontro.
Mas deve haver um sentido para tudo isso.
Que sentido há para as palavras que não o de acalentar um coração que as escuta?
Que sentido há para uma singela flor que não traduzir um bem-querer frágil, belo e tenaz?
Que sentido há nas crianças que não a realização do que já foi sonhado?
E me guarda o sono a Lua, enquanto busco aquele sorriso em meu sonho.

Rosetta

Certa vez, e, recentemente, de novo, disse que não dou os mesmos versos a duas pessoas. E existem os que gostaria de enviar mais uma vez, mas não o faço. As palavras que os formam são a tradução daquilo que cativou meu olhar. Como pode uma tradução caber a dois sentimentos? Sabe lá, mas não creio na possibilidade e, portanto, o texto é para quem me inspirou a fazê-lo.

Outra vez fui acusado de manter um repertório de cortes, já prontas, para tentar quem porventura me interesse. A incredulidade em tal afirmação me fere e mostra que aquela pessoa nunca soube o que é receber um punhado de palavras feitas só para ela. Lamento, e mais lamento que não tenha visto o real sentido de meus atos. Mas guardo o que lhe fiz e lembro do que me inspirou.

Não vou deixar de fazer os versos toda vez que um par de olhos me revelar o brilho de uma vida. Sou apenas um tradutor, não sou dono do que transcrevo daquele sorriso. Entrego-lhe sua versão literal e fico pensando como seria poder traduzir seus sonhos. Acaso não saiba ler o seu coração, já não me importa. Ladrão, roubo um pouco de vida, mais uma vez, para minhas palavras e devolvo na forma de versos. Mentiroso,  conto mais uma história, para ocultar, entre o falso, a verdade que ela não soube enxergar.

Procura-se II

Sentir a vida correndo nas veias. Fazer cara de bobo pensando num rosto, escrever coisas bonitas e mandar cartões com selo de cera e frases sinceras. Gastar meus minutos antes do sono pensando em fazer-lhe uma surpresa, em criar um novo jeito de roubar-lhe um sorriso e um beijo. Fazer graça do bolo que não acertei fazer, cozinhar para nós dois um jantar, adormecer com seu sono tranqüilo aninhado em meus braços. Ver que as esquinas são pequenas para nós e ganhar o mundo em sua companhia. Vinte, trinta anos depois, acordar e ver que ainda me apaixono todos as manhãs ao ver seu rosto.