…E quase jogo esse texto fora. Sei lá. Mas certas coisas não correm o risco de virar clichês, mesmo quando já o são de nascença. Certas coisas não correm o risco de serem ridículas mesmo quando nos fazem sentir uns belos palermas só de pensar. Pessoalmente, não é meu tipo de texto preferido, há algo nele que me incomoda profundamente. Mas tem quem goste, e eu não podia guardar isso numa gaveta :).
Espero que gostem. Mentira, eu não tenho certeza se gostei. Mas espero que gostem.
.fs
- Como me livro de alguém inesquecível?
- Temo ainda não ter descoberto.
O envelope imaculado repousa sobre o tampo da mesa da sala, enquanto dá-se esse diálogo. Alana o fita como quem encara uma porta sem ter idéia de quem a cruzará. Faz algumas semanas que ele partiu, mas não esqueceu de seu aniversário, e o envelope traz seu endereço novo em sua caligrafia miúda e afilada, com um cartão, provavelmente escolhido a dedo e com algumas coisas bonitas escritas com a mesma letra rápida. Vencida por um lado de si, abre o envelope. Sem cartões, apenas uma foto protegida por dois pedaços de papel grosso. Um girassol.
“Girassóis sempre viram-se para a luz. Flores um dia morrem. Mas, antes que chegasse um ou outro crepúsculo para essa flor, aprisionei sua alma nesta imagem, para dá-la de presente a outra, para que uma tenha sempre à outra e brilhem sempre juntas, refletindo a luz do sol. Felicidades e saudades.”
Eis que a saudade condensa e lhe rola, discretamente, do olho à boca. E Alana não consegue escolher se amaldiçoa o momento em que abriu o envelope ou se o eterniza em sua memória como ele eternizou aquele girassol. Não saber escolher entre coisa e outra custou-lhe a noite e, horas depois, lá estavam as duas flores presenciando a aurora na janela daquela sala.
Quase dois meses desde sua partida, Roberto não mandou qualquer notícia. Preferiu silenciar, na tentativa de fazer com que o nó na garganta se dissolvesse mais rápido. Os bons remédios são amargos, mas o amargor não diz se o remédio é bom, e Alana lhe povoou os sonhos mais uma vez, a uma semana de seu aniversário. Sua vizinha, uma senhora gorda e sorridente, cultiva girassóis no canteiro de sua varanda, e ele mal consegue se afastar da câmera, como o cheiro daqueles cabelos não o abandona. Com o marcador permanente do balcão do laboratório fotográfico, escreve apressadamente palavras bonitas que preferia poder sussurrar pessoalmente rente àquela orelha. Solicitou remessa expressa, para ter certeza de que chegaria a tempo, o que, de fato, ocorreu, e inspecionou o trabalho da agente postal para que a foto não fosse marcada pelo carimbo, a despeito das duas grossas folhas de papel que a guardavam dentro do envelope branco. Agradeceu e tomou o rumo do café onde costumava tomar notas sobre a cidade à qual ainda não havia se acostumado de todo.
Alana não perdeu o sono por conta da caligrafia que bem conhece, pela flor ou pelo que havia no verso. Na verdade, o que a inquietou desconcertantemente foi o final. Saudades. Um abraço apertado vem à tona e o nó se forma em sua garganta. Mas… o silêncio partiu dele, e tal emudecer começa a ficar claro, embora ela ainda vá levar algum tempo para dar conta de algo que, acreditava, mais parecia um convite a ocupar um lugar na parede das memórias de alguém que já a viu adormecer. O silêncio é a saudade que lhe paralisa as cordas vocais, que digere seu estômago. É a vontade quase que irresistível de largar tudo e ir bater àquela porta colonial, coisa que ele não pode fazer agora. O silêncio foi a forma que ele conseguiu de vencer a si mesmo. É seu remédio amargo, mas que não sabe dizer se faz mesmo algum bem.
Apesar do movimento que denuncia o oposto, o silêncio parece ser a vontade de Roberto, e ela respeita tal vontade. Se fizer-se ouvir uma voz, não será a dela a primeira. Não é orgulho. Tudo muito abrupto, a partida, os laços cortados… deve haver um motivo muito forte para isso. Alana não consegue digerir a possibilidade de que ele simplesmente encheu uma mala de roupas e foi embora. Ele foi atrás de um sonho, mas havia outro sonho que não era só dele. E sonhos não se dividem.
Epílogo
- Oi
- Oi
- Fiquei sabendo que você chegou. Saudades suas.
- É, cheguei ontem de noitinha. E você, tudo bem?
- Tudo, tudo bem. Veio a passeio ou…
- De mudança. Pelo menos por enquanto.
- Que bom. Tem planos pro jantar?
- Não faço mais planos pra nada. O que tem em mente?
- Um jantar aqui em casa, nós dois e uma garrafa de vinho.
- Fechado. Mas eu cozinho.
Roberto sentiu um nó inflar em sua garganta, como na vez em que se descobriu alérgico a mariscos. A visão daquele olhar que o chamou na primeira vez em que se encontraram traz lembranças demais, partidas demais. Chega de partidas.
Abraçaram-se forte, mas contiveram a vontade de um beijo, talvez por medo do que os invadia naquele instante. Algo de um magnetismo sobrenatural, que manifestava-se em uma saudade que trouxe um frio adolescente na barriga e olhos marejados.
Ela já tinha esquecido como gostava de vê-lo fazendo algo que lhe agradava. Ele gosta de cozinhar e sabe preparar seu molho preferido como só sua avó sabia. É só um linguine, mas não é só. É um linguine feito por alguém de cujas mãos ela provaria até bolo queimado. Alguém que serviu de cobaia para suas experiências malsucedidas ao fogão, que aprendeu a fingir gostar de comer seu arroz empapado apenas para vê-la sorrir. Terminaram o jantar e foram conversar no sofá.
- Eu menti pra você hoje cedo
- Como assim?
- De não ter planos.
- Você tinha compromisso pra hoje?
- Não, digo… de não fazer mais planos.
- Ah, tá. Mas então você tem planos para algo?
- Para alguém.
Ela hesita… “Não sei se entendi”
- Não tente.
Roberto vira-se de costas e ela o aninha em seus braços.
- Eu estou em casa, agora.
Alana o aperta, desliza numa posição mais agradável para suas costas e o vê dormir, numa paz reconquistada. Até então, nunca entendera de verdade quando ele dizia que lar era onde nos sentíamos em casa. Até então.